Segunda-feira, 5 de Março de 2007

"The End"

"Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade do todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve, como já ensinara o sábio do Eclesiastes, em desilusão e poeira.

- Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna (…) à minha espera, (..) se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não saía deste passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o único que se deve ter na vida.

- Nem eu! - acudiu Carlos com uma convicção decisiva

E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrar ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém. (…) De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:

- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite! Esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.

E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ai esquecido em memórias do passado e sínteses da existência, pareceu ter inesperadamente consciência da noite que caíra, dos candeeiros acesos. A um bico de gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!

- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança pontualmente àss seis! Não aparecer por ai uma tipóia!...

- Espera! - exclamou Ega - Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.

- Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:

- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...

Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:

- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...

A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:

- Ainda o apanhamos!

- Ainda o apanhamos!

De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

 

 

   Esta é a parte final (epílogo) da obra “Os Maias – Episódios da Vida Romântica” de Eça de Queirós. Para nós os cinco, este é o trecho mais interessante de toda a obra, aquele que nos faz pensar mais (assim como talvez também a Eça, não tendo ele o deixado para o fim por acaso).

   Na realidade, Ega e Carlos descobrem que a teoria com que acabaram de concordar, “não vale a pena correr para nada, pois que o destino já está traçado”, não se aplica sempre na vida de todos nós. Há muitas coisas pelas quais vale, e muito, a pena “correr”, não ser prudente, arriscar, lutar pelo que se quer, sobretudo pela felicidade.

   O fracasso desta teoria vem também acabar por contradizer a corrente literária naturalista, segundo a qual os nossos comportamentos e ideias são determinados somente (ou praticamente) por três aspectos: educação, meio social e hereditariedade. Será necessário somar aspectos importantes como os sentimentos ou o “esforço de cada um em correr”, que indicam que o destino de alguém não está traçado à nascença.

   Eça de Queirós deixou-nos um legado intemporal ao qual não podemos ficar indiferentes. Nós, Martini aconselhamos a leitura de “Os Maias”!

 

Leiam a obra!

Fontes:

Virtual Tourist, Acedido em 5 de Março de 2007

http://members.virtualtourist.com/m/p/m/c79b6/

QUEIRÓS, Eça, "OS MAIAS", Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 5ºa edição

sinto-me:
publicado por Martini às 04:10
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2 comentários:
De Rai a 19 de Maio de 2007 às 00:41
Hoje estivemos a ler esse excerto na aula de português, acabamos a leitura...

"Falhámos a vida menino!"...é engraçada a maneira como as personagens se contradizem, através do Eça, primeiro defendem o fatalismo e logo depois estão a correr desesperadamente, a rirem-se de si mesmos, para apanhar o americano..
De Antao se calhar...nao rolhas a 24 de Novembro de 2007 às 14:14
Hoje acabei o meu primeiro livro lido em português . E era o mesmo: os Maias...
Gostei Muito. O fim é uma peça alta da literatura.

[... ]Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado.
- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim...mas todo o mundo mais o menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação [...]

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